O que é o cancro?

O cancro é uma doença heterogénea, biologicamente complexa, causada pela proliferação descontrolada de células. 

As nossas células têm a capacidade de crescer e de se dividir para formar novas células, algumas envelhecem, morrem e são substituídas por novas células.

Por vezes, este processo pode ser alterado, porque há um crescimento descontrolado de novas células ou porque as células envelhecidas não morrem. Este crescimento descontrolado de células é chamado de tumor.

Crescimento celular normal
Crescimento celular descontrolado

Os tumores podem ser benignos ou malignos:

Tumores Benignos – são indolentes e não se costumam disseminar para outros locais.

Tumores Malignos ou cancro – podem crescer com maior rapidez e podem disseminar-se para outros locais (metástases), colocando a vida do doente em risco.

Tumor Benigno
Tumor Maligno

Este crescimento descontrolado e o aparecimento de cancro pode ser causado por erros nos nossos genes, nomeadamente:

Mutações oncogénicas -“o carro tem o acelerador a fundo”

Inibição dos genes supressores tumorais -“o carro não tem travões”

Esta é uma explicação muito simples de um processo extremamente complexo que envolve diferentes vias de crescimento celular.

Já são conhecidos muitos dos mecanismos de desenvolvimento do cancro, mas ainda existe muito por descobrir.
Para informação mais detalhada pesquisar “Hallmarks of Cancer”.

Hallmarks of Cancer

O cancro é considerado uma doença heterogénea e biologicamente complexa. Nem todos os cancros são iguais. O cancro da mama é diferente do cancro do pâncreas ou do pulmão, e mesmo dois cancros da mama podem ser diferentes entre si. Isto resulta de vários fatores, como o órgão onde teve origem, o tipo de células, as alterações genéticas, a resposta do sistema imune, entre outros.

A evolução da tecnologia, da investigação e do conhecimento do genoma humano proporcionou muitas conquistas contra o cancro, com o desenvolvimento de novos tratamentos e melhoria dos cuidados de suporte. Esta evolução é de louvar e dá-nos esperança para o futuro.


Cancro Esporádico 70-85%

Devido a erros nos genes acumulados ao longo da vida (mutações somáticas), muitas vezes sem causa conhecida, possivelmente relacionados com fatores ambientais e estilo de vida.

Cancro Familiar não hereditário 10-20%

Certas famílias têm maior propensão a determinados tipos de cancro, também eles relacionados a fatores de risco ambientais e de estilo de vida.

Cancro hereditário 5-10%
Devido a erros nos genes transmitidos de pais para filhos (mutações germinativas), que aumentam a propensão ao aparecimento de cancro. Aparecem habitualmente em idade mais jovens. É difícil de identificar com certeza qual o fator que causou o aparecimento de cancro, mas são conhecidos alguns fatores que aumentam o risco, tais como:

  • Envelhecimento
  • Tabaco
  •  Exposição excessiva à luz solar por radiação ultravioleta (UV)
  •  Radiação ionizante, por exemplo Radão, Raio-X (Os exames com raio-X para diagnóstico médico usam uma dose baixa de radiação e o risco de cancro é extremamente reduzido)
  •  Produtos químicos e outras substâncias, por exemplo amianto, benzeno, entre outras
  •  Vírus e bactérias:
    1. Vírus do Papiloma humano (HPV): principal causa de cancro do colo do útero
    2. Vírus da Hepatite B e C: podem causar cancro do fígado
    3. Vírus da imunodeficiência humana (HIV) e Herpes Humano 8 (HHV8): podem causar Sarcoma de Kaposi
    4. Vírus dos linfomas T humanos (HTLV-1): aumenta o risco de linfoma e leucemia
    5. Bactéria Helicobacter pylori: pode causar úlceras no estômago, cancro do estômago e linfoma
  •  Álcool
  •  Dieta pobre, pouco equilibrada, com base em comidas processadas e açucaradas, excesso de gorduras saturadas, carnes vermelhas e enchidos
  •  Falta de atividade física (sedentarismo)
  •  Excesso de peso

Alguns destes fatores podem ser modificáveis com a implementação de hábitos de vida saudáveis.

Estima-se que 40% dos cancros podem ser evitados com mudanças no estilo de vida.

Recomendações de Prevenção de Cancro da World Cancer Research Fund (WCRF)

Incidência anual de cancro em Portugal (2022)

Mais informações sobre dados de incidência de cancro em:

Alguns tipos de cancro podem ser detetados mesmo sem sintomas. Os programas de rastreio de cancro são realizados em pessoas saudáveis, com o objetivo de identificar as neoplasias numa fase inicial, aumentando a probabilidade de cura.

Em Portugal existem 3 programas de rastreio ativos:

Rastreio do Cancro da Mama - Mamografia de 2/2 anos, em mulheres a partir dos 45 anos, até aos 74 anos.
Rastreio do Cancro do colo do útero - Pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF) de 2/2 anos, a partir dos 50 anos, até aos 74 anos. Se positivo considerar estudo endoscópico.
Rastreio do Cancro do colon e reto - Pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF) de 2/2 anos, a partir dos 50 anos, até aos 74 anos. Se positivo considerar estudo endoscópico.

Deve discutir com o seu médico de família se tem indicação para realizar exames específicos de rastreio.

O diagnóstico precoce de cancro pode ser difícil, porque muitas vezes os sintomas surgem apenas em fases mais avançadas, ou porque os sintomas são gerais e pouco específicos.

Sintomas:

É importante estar atento a sintomas, especialmente se persistirem durante algum tempo, entre eles:

  •  Massa, nódulo ou espessamento, na mama ou noutra parte do corpo.
  • Alteração cutânea, como um sinal novo ou alteração da cor/textura/tamanho de um já existente.
  •  Sensação de cansaço extremo
  •  Perdas de sangue (nas fezes, urina ou expetoração)
  •  Alteração do trânsito intestinal ou queixas urinárias
  •  Perda de peso sem motivo aparente
  •  Dificuldade em engolir, enfartamento rápido, desconforto após comer
  •  Rouquidão ou tosse que não desaparece

Exames complementares de diagnóstico:

O seu médico irá guiar o estudo diagnóstico de acordo com a suspeita clínica e pode recorrer a vários exames, entre eles:

Análises laboratoriais

Exames de imagem:

Raio-X ou radiografia
Ecografia
TC (Tomografia computorizada)
Cintigrafia óssea
PET (Tomografia por emissão de positrões)
RM (Ressonância magnética)

Exames endoscópicos:

  •  Broncofibroscopia – avaliar traqueia e brônquios
  • Endoscopia Digestiva alta – avaliar esófago, estômago
  •  Colonoscopia – avaliar intestino

Biópsia:

Biópsia -> avaliação ao microscópio -> relatório

O diagnóstico definitivo de cancro é feito após análise histológica da biópsia.

Os exames de imagem vão ajudar a fazer o estadiamento da doença, percebendo se é uma doença localizada ou se a doença se espalhou para outras partes do corpo (metástases). Esta informação é importante para escolher o melhor tratamento para o doente.

Para um problema tão complexo como o cancro, a decisão da estratégia terapêutica é habitualmente realizada em equipa multidisciplinar, envolvendo vários especialistas como o cirurgião, oncologista, radioncologista, entre outros.

O tratamento depende do tipo de cancro, do estádio da doença, do estado geral do doente e pode envolver tratamentos locais ou tratamentos sistémicos.

Tratamentos locais como:

Cirurgia
Radioterapia

Tratamentos sistémicos como:

Quimioterapia
Hormonoterapia
Terapêutica alvo
Imunoterapia

O médico assistente irá aconselhar o doente sobre a terapêutica mais adequada à situação clínica e explicar os principais efeitos secundários.

Em sinergia com esta estratégia deve ser prestado apoio complementar envolvendo nutrição, psicologia e exercício físico para otimizar a condição do doente e melhorar a qualidade de vida e bem-estar.

Para mais informação geral sobre cada tipo de cancro: